Recentemente, em um grupo de conversas sobre masculinidades que facilito aqui em Vitória, um link circulou com uma manchete atraente: "A psicologia revela que as gerações dos anos 60 e 70 desenvolveram maior resiliência pela negligência benigna".
O termo "negligência benigna" não existe na psicologia clínica ou do desenvolvimento; na verdade, as duas palavras são excludentes entre si. Negligência é uma forma de privação de cuidado, enquanto "benigno" sugere algo inofensivo ou positivo. Essa contradição de termos é o primeiro sinal de uma falácia lógica que tem sido amplamente usada para justificar modelos de criação e de masculinidade baseados no distanciamento emocional e na dureza.
O mito da "negligência benigna" e a resiliência forçada
Rastreando a origem desse termo, descobrimos que ele não nasceu em um laboratório de psicologia ou em uma pesquisa sobre desenvolvimento infantil, mas sim na política norte-americana da década de 70. Daniel Patrick Moynihan, consultor de Richard Nixon, usou o termo em um memorando político sobre relações raciais. Não era sobre educação, mas sobre estratégia de governo.
Para a psicologia, a negligência — a falta de atenção às necessidades emocionais e físicas de uma criança — é um fator de risco documentado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A ideia de que "ser deixado de lado" nos tornou mais fortes é uma interpretação romantizada de uma sobrevivência que, muitas vezes, teve um custo emocional alto: a dificuldade de pedir ajuda, a rigidez emocional e o isolamento.
Por que o discurso Redpill é tão sedutor?
É compreensível que muitos homens se sintam atraídos por esse tipo de conteúdo ou pela chamada tendência Redpill. Vivemos um momento de transição em que o jeito tradicional de ser homem está sendo questionado, e isso gera uma angústia real. Quando um homem em dificuldade no casamento ou sentindo-se sozinho nas redes sociais encontra um conteúdo que lhe diz "você é fraco porque não foi criado na dureza" ou "o problema são as mulheres", ele encontra uma resposta fácil para um problema complexo.
O discurso Redpill cooptou homens que buscam ordem e compreensão do mundo, mas o faz através de uma lógica falaciosa e, muitas vezes, misógina. Estudos acadêmicos sugerem que esses movimentos capturam a vulnerabilidade masculina (solidão, rejeição e insegurança) e a transformam em uma "recusa da vulnerabilidade", incentivando a construção de paredes emocionais e a adoção de arquétipos rígidos de dominância que, no longo prazo, aumentam o isolamento.
Sinais de um modelo de masculinidade capturado por falácias
- Busca por culpados externos: Atribuir o sofrimento emocional a grupos sociais (ex: mulheres, feminismo) em vez de olhar para a própria experiência.
- Falsa dicotomia: Acreditar que ou se é um "predador dominante" ou um "fraco negligenciado".
- Repressão emocional como virtude: Confundir "não sentir" com resiliência.
- Fontes de informação duvidosas: Basear-se em editoriais sem autoria ou sites que utilizam IA para replicar discursos de ódio ou pseudociência.
A alternativa: O que é uma masculinidade saudável?
De acordo com as diretrizes da American Psychological Association (APA), uma masculinidade saudável não é o oposto de ser homem, mas sim a ampliação das possibilidades de ser. Ter coragem, força e liderança são traços positivos, desde que não venham acompanhados da proibição de sentir ou da necessidade de dominar o outro.
Na Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), acreditamos que a verdadeira força reside na congruência: a capacidade de um homem estar em contato com o que sente e conseguir expressar isso de forma autêntica. Ser resiliente não é sobre não ter tido pais presentes, mas sobre ter tido um ambiente seguro o suficiente para aprender a regular as próprias emoções sem precisar se esconder atrás de uma máscara de frieza.
Um convite ao diálogo em Vitória
Se você sente que está "andando em círculos" tentando entender seu papel no mundo através desses discursos digitais, saiba que existe um caminho mais profundo e real. Em março, mês da mulher, estamos organizando um novo encontro do nosso Grupo de Masculinidades em Vitória (Jardim da Penha) e em formato online.
Não é um espaço para "dar lição de moral", mas para discutir a necessidade de um modelo de masculinidade que não nos adoeça.
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Perguntas Frequentes
O que é negligência benigna na psicologia?
Na verdade, esse termo não existe na psicologia científica. Negligência é a ausência de cuidado e atenção às necessidades de uma criança, o que é prejudicial ao desenvolvimento. O termo foi criado no contexto político dos EUA na década de 70 para tratar de questões raciais, e não de educação infantil.
Como a psicologia vê o movimento Redpill?
Pesquisas recentes (como as de Debbie Ging e outros estudiosos do fenômeno da 'manosfera') indicam que esses movimentos funcionam como uma tentativa de 'remasculinização' através de normas rígidas. Eles utilizam as inseguranças reais dos homens para promover um modelo de 'hiper-racionalidade' e controle emocional que, paradoxalmente, agrava problemas de saúde mental como ansiedade e depressão.
Qual a vantagem de um grupo de masculinidades?
Diferente das redes sociais, um grupo terapêutico coordenado por um psicólogo oferece um espaço seguro para que homens falem sobre suas dores sem julgamento. É um lugar para desmontar a performance de 'homem durão' e descobrir formas mais saudáveis e conectadas de viver.
Como identificar se uma notícia sobre psicologia é falsa?
Verifique sempre a autoria (se é escrita por especialistas), a fonte (jornais renomados ou periódicos científicos) e se o conteúdo tenta vender uma solução milagrosa ou atacar grupos específicos. No caso da 'negligência benigna', sites de gastronomia e marketing digital replicavam um conteúdo sem base científica profunda.
Referências Bibliográficas
- American Psychological Association. (2018). Guidelines for psychological practice with boys and men. https://www.apa.org/about/policy/boys-men-practice-guidelines.pdf
- Ging, D. (2019). Alphas, Betas, and Incels: Theorizing the Masculinities of the Manosphere. Men and Masculinities, 22(4), 638–657.
- Moynihan, D. P. (1970, January 16). Memorandum for the President: The Negro family [“Benign neglect” memo]. The White House.
- Rogers, C. R. (2019). Tornar-se pessoa (6ª ed.). Martins Fontes. (Obra original publicada em 1961)
- World Health Organization. (2022). Child maltreatment factsheet. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/child-maltreatment
